Documento apresentado a alunos de 10º, 11º e 12º ano de escolaridade em Abril de 2003 em Almada, Portugal

 

Filósofos do Século XIX

 

 

A grande maioria dos filósofos do século a que me reporto, e em especial na Alemanha, desenvolveram as suas ideias assentes nas obras de Kant[1] explorando em particular o idealismo e a ética que exibe uma tradição filosófica baseada com grande ênfase na vontade-desejo do Ser Humano. Enquanto antes de Kant os filósofos tenham analisado, explorado e desenvolvido os objectos do conhecimento, posteriormente os filósofos integrados na via idealística kantiana enveredaram na matéria do conhecimento desenvolvendo ideias como as do ego, do eu e do Eu[2], a mente e a consciência humana. Claro que a partir daqui surgiram inúmeros absolutistas como Johann Gottieb Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling tendo este liderado o movimento conhecido como Romanticismo e Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta americano. O primeiro transformou o idealismo crítico de Kant num idealismo absoluto transformando a ideia das coisas no seu conteúdo-contexto no ego como última e máxima realidade. Desta forma para Fichte, o mundo foi criado por um ego absoluto o qual, por sua vez, no início apenas tinha consciência de si próprio e à medida que a criação se desenvolvia a sua consciência ampliava-se ao ponto de tomar conhecimento do não-eu ao ponto de poder distinguir as variedades contidas no mundo; para este filósofo a vontade humana não é mais do que uma manifestação parcial do ‘ eu ’ que concede aos seres a liberdade de agir.

Já o segundo, Schelling, penetrou ainda mais fundo no idealismo absoluto afirmando a construção dos objectos ou cousas fruto do trabalho da imaginação ao ponto da Natureza ser um único Ser do ponto de vista do cariz espiritual. O terceiro, Emerson, baseia a Iluminação não na razão mas na sua fé do sentir coadjuvada pela imaginação criativa.

Sem discussão, a mais poderosa mente filosófica do século dezanove foi Hegel cujo sistema do idealismo absoluto, de sobremodo influenciado por Kant e Schelling, assentou numa nova concepção tanto da Lógica como dos Métodos filosóficos. Este filósofo alemão acreditava que a verdade absoluta, ou realidade, não só existe como a mente humana se encontra apetrechada para a abarcar através do conhecimento porque «tudo o que é real é racional»; dunqüé[3], como matéria filosófica parte da concepção da realidade como um todo, isto é, da realidade a que ele se reporta como Espírito Absoluto ou razão cósmica abarcando esta ideia todo o mundo da experiência humana seja ela subjectiva ou objectiva. No cerne destas concepções o filósofo determina-se no planear toda uma acção que lhe permita desenvolver a partir do abstracto Espírito Absoluto tomar os seres indiferenciados a fim de os inserir cada vez mais na realidade através de um processo dialéctico o qual consiste num método no qual as ideias em conflito se resolvem através de tríades a vários níveis. Cada tríade envolve a Tese a qual consiste numa ideia ou movimento e este é o primeiro estágio; o segundo aspecto desta tríade consiste na Antítese (opositora ao estágio anterior; por fim, o terceiro e mais elevado estágio a Síntese que Combina os elementos dos dois primeiros estágios opostos e permite o concluir um novo e superior Arranjo[4]. Desta forma a Síntese torna-se a Tese da tríade seguinte... este processo sem fim é que, segundo Hegel, permitirá progredir no caminho até ao Ideal e dado a profundidade deste sistema dialéctico o filósofo apela que esse sistema deva ser aplicado a todos os campos do conhecimento: tanto na ciência como nas letras e nas artes.

Na época a que nos reportamos as discussões históricas de Hegel possuíam uma força inegável[5] porque continham como contraforte a filosofia política e social mais tarde desenvolvida por Karl Marx o que não é de estranhar uma vez que o filósofo alemão no cerne do Espírito Absoluto defende e demonstra que através da Dialéctica se pode observar, estudar e concluir o but[6] da Razão de ser dos conflitos, das guerras... enfim, do crescimento e queda das civilizações e como de estúpido não tinha nada, reforça a real entidade política dos estados como manifestações do Espírito[7] no mundo tal como reais participantes-causadores da História. Para Hegel em cada época um Estado gera – ou torna-se agente de -, um avanço espiritual adquirindo para si o Poder[8] mas porque a Dialéctica inclui em si a oposição e o conflito a guerra pode tornar-se eminente tornando-se, portanto a avaliadora evidente da saúde de um ou vários Estados. O que parece Hegel avaliar no conceito de Estado a manifestação do Espírito Absoluto, só para distraídos ou para leitores na-diagonal [9], fez com que muitos acreditassem ter sido ele a fonte do totalitarismo quando nos seus documentos advoga e desenvolve amplamente a importância da Individualidade do Ser... o seu conceito de Estado no âmbito do Espírito Supremo apenas o acusa no foro histórico e social quando tende a entrar e permanecer nesse totalitarismo baixo domínio de classes.

      Quem rejeitou amplamente as teorias de Hegel em relação à fé na razão como matéria para o progresso foram Schopenhauer e Nietzsche tendo este último também e posteriormente repudiado a negatividade e a atitude resignada de Schopenhauer. Arthur Schopenhauer assentou na ideia da existência ser fundamentalmente irracional e por isto uma expressão cega de força inútil baseada apenas no desejo-vontade: o desejo de viver, o desejo da reprodução e assim sucessivamente ao ponto de expor o desejo-vontade como sujeito a uma constante luta inglória plena de desapontamentos e sofrimento. Este nosso filósofo, no entanto, oferece-nos dois caminhos amplos a fim de nos permitir escapar do desejo-vontade irracional: a contemplação da arte com o fito de nos libertar das agruras e durezas da vida tal como a renúncia ao desejo-vontade o que passa por deixar de lutar na busca pela felicidade. Observa-se aqui uma forte influência da filosofia indiana... aliás, ele é considerado um dos primeiros filósofos ocidentais influenciado por esse modo de vida do Extremo Oriente; por exemplo, o pensamento budista surge nos seus documentos na tentativa de demonstrar que o mundo se encontra pleno de maldade e de sofrimento factos que só podem ser ultrapassados através da auto-renúncia[10]. A partir de aqui Schopenhauer envolve-se numa psicologia analítica sobre as forças irracionais que dominam o Ser formando uma escola afim que pretende enfatizar as causas em função das nossas opções tal como estudos sociológicos com o fito de examinar os factores que afectam as pessoas e, por fim, desenvolver as atitudes culturais que deverão destruir o valor da razão na vida.

Já Nietzsche, contrapondo Schopenhauer, afirma o valor da vitalidade, da força e da supremacia de uma existência a qual é puramente egoística e por isto, passa a desprezar as ideias cristãs e democráticas assentes na igual dignidade dos seres humanos o que, segundo ele, apenas se podia aplicar a um pequeno grupo de aristocratas possuidores do poder que lhes concedia a  recusa da sujeição quer a um Estado ou a uma causa[11] conseguindo mesmo assim alcançar o reconhecimento da grandeza e da auto-realização.

Para Nietzsche era no poder de ser-se forte que consistia o maior valor da vida e mesmo reconhecendo o valor do génio superava o dos ditadores, foram as suas crenças que ajudaram a contribuir para o desenvolvimento das ideias do Nacional Socialismo Nazi. Porém, este nosso filósofo é de sobremodo difícil de entender... por um lado contribuiu a sua anomalia mental em parte de origem hereditária e por outro o abuso de soporíferos o que veio agravar o seu estado de sanidade mental ao ponto de o conduzir à morte.

Toda a sua vida foi recheada de oscilações de opinião em cuja fase inicial tanto se apresenta um filósofo em determinados documentos mas alterna com estes grandes fases de imaturidade. É inegável que como escritor e pensador se tornou um dos mais notáveis impressivos estilistas do século XIX pelo carácter lírico do seu pensamento e da sua prosa.

Na sua grande e forte relação com Wagner, para exemplo da sua inconstância mental, tornou-se um ardoroso partidário das doutrinas estéticas de Schopenhauer... neste período breve, onde a sua imaturidade[12] se exibiu de sobremodo, sustentou a tese (In A Origem da Tragédia), de que tanto os motivos dionísicos-orgiáticos como os apolíneos (ordenadores e harmonizadores), contribuíram para o nascimento da tragédia ática; tal até se pode constatar hoje pois, contrariamente aos atenienses e à sua decadência prevaleceu Esparta pela sua cultura frugal estabelecida no seu grande documento-bíblia: a Paideia.

Nestes mentais moods Nietzsche desentende-se com Wagner - porque este perante as audiências pretende êxitos imediatos -; do mesmo modo e sem se poder concluir bem o porquê corta radicalmente com Schopenhauer induzindo-se numa total descrença em relação ao cristianismo. Acusa a Ética tradicional cristã no que concerne aos ideais da humanidade ao cúmulo de, deificando a paixão, desprezar a racionalidade; por outro lado, decide sustentar que a falsidade de uma opinião não é objecção válida contra ela no caso de tal opinião ser vitalmente útil e de que as mais falsas opiniões são por vezes as mais úteis[13]. O ideal de Nietzsche vai-se modificando-ampliando e passando pela satisfação dos instintos vitais rapidamente alcança a necessidade de dar expressão à vontade de dominação e poderio porque o homem moral que vive para os outros apenas se exibe como um fraco... um degenerado; agora, o egoísta o senhoreador aquele que ergue sobre os outros o seu domínio é o verdadeiro ideal humano, o super-homem.

Em 1889 o nosso filósofo entra em estado de completa insanidade mental - estado que o conduzirá ao fim dos seus dias -, porém e entretanto, sob os cuidados da sua irmã torna-a porta-voz tal como suprema sacerdotisa do seu culto. E se tanto me debrucei sobre Nietzsche é porque ele traduz todo conceito da Paideia: o melhor é o forte... Dizer que este filósofo foi o contributo base para o Nacional Socialismo é desconhecer o Rosa-Crucianismo[14] o qual com toda a sua argúcia elevou a tónica do arianismo, da raça pura enquanto e paralelamente cediam toda uma simbológica secreta que espantou o mundo, junto com a música de Wagner, pela proeza concedendo a completude da força da propaganda Nazi.

Num sistema completamente alheio aos atrás expostos mas dentro do espírito da Revolução Industrial, surge um novo princípio ético: o Utilitarismo assente no Aquilo que é útil é que é bom. Nesta cena surgem dois economistas, também filósofos, a saber: Jeremy Bentham e John Stuart Mill... este último não só ampliou como refinou esta doutrina. Por comparatividade dos argumentos de Kant que estabelecia o princípio racional de que a lei moral era superior ao desejo individual, estes senhores afirmaram que os úteis exigem o princípio ético da utilidade ser superior aos interesses da individualidade e, baixo este conceito, as pessoas entenderiam a necessidade de ser governadas. Estes Utilitarianistas assentaram os seus fundamentos na teoria de que cada um ambiciona a sua felicidade; ora, como as pessoas só a podem encontrar no seio da sociedade logo e consequentemente todos possuímos um interesse na felicidade geral[15], por isto, de acordo com a produção assim se torna a grandeza da felicidade não só pessoal mas e acima de tudo da comunidade e ao torná-los felizes mais útil a sociedade se torna. Se Bentham acreditou na possibilidade de quantificar as alegrias e os prazeres resultantes da acção de cada um tal como de uma comunidade concedendo-lhes o direito, a qualquer altura, de decidirem aquilo que lhes poderia promover o maior acumulo de alegria e felicidade já Mill em grande parte não aceitou tal ideia.

Mill baseou os princípios do Utilitarismo para o fim da justiça social de modo a que o princípio da utilidade influenciasse a legislação com o fito – o que realmente conseguiu -, de a ampliar social e economicamente... e desta forma grandes reformas surgiram na Inglaterra.

A segunda reacção a Hegel digna de consideração proveio do filósofo dinamarquês SÆren Kierkegaard (1813 – 55) que desenvolveu uma filosofia da vida muito distinta - o que para muito contribuiu o seu curso de Teologia[16] -, dos autores atrás focados sendo este filósofo geralmente relembrado como o fundador do Existencialismo. A sua reacção a Hegel foi dura ao ponto de considerar as suas teorias um anátema uma vez que, segundo o seu ponto de vista, não tomou em consideração a existência tal como a natureza pessoal de Deus; ora, a relação do Homem com Deus é o tema-tese fulcral, o dominante, nas obras do nosso filósofo dinamarquês. Por exemplo, na sua obra Either/Or (1843), Kierkegaard[17] exibe ostensivamente que apenas existem duas vias para a vida: a da Estética e o da Ética; porém, acaba por sugerir que o final das duas era definitivamente para serem rejeitadas a favor de uma terceira via... a mais importante: a Religião. É na realidade um trabalho muito curioso que tem muito a ver com a obra de Mozart Don Giovanni;  para tal dois personagens foram criados pelo nosso filósofo o qual os integrou na obra do grande músico para os seus fins de análise-interrogação-conclusão: o personagem A que personifica o modo estético de vida do grande compositor e o personagem B que critica sistematicamente o personagem A. Tudo se segue  através do Diário de um  Sedutor que afirma ter algo sido encontrado entre os papéis pertencentes a A, umas páginas que contêm os registos das relações entre Johannes o sedutor e Cordélia... o objecto da sedução. Essas folhas manuscritas descrevem os métodos adoptados por Johannes e nas últimas duas páginas como ele obteve o que pretendia abandonando-a por completo por estar esgotado o seu interesse por ela; segundo as afirmações de Johannes, nessa última folha, ele garante que a conduziu e a introduziu na mais elevada esfera da consciência!

A Segunda parte do trabalho divide-se em dois sectores: o primeiro consiste em duas cartas que abarcam A Validade Estética do Casamento e O Equilíbrio entre o Estético e o Ético na Composição da Personalidade; o segundo sector é preenchido por um sermão cujo orador é um padre cujo nome não é especificado. As cartas (do primeiro sector da segunda parte), são escritas por B tecendo críticas a A mas o teor das mesmas revela que na realidade são escritas pelo juiz Wilhelm o qual visitou frequentemente A... quanto ao padre, esse fala a favor da religião.

Por Estética Kierkegaard entende a preocupação dos sentidos o que, para ele, implica o prazer e o erótico. A advoga o Método da Rotação o qual envolve o caminhar indiscriminado de um prazer para alcançar outro para só mais tarde voltar ao primeiro; porém e por sua vez, o juiz Wilhelm impõe o dever na perseguição da livre escolha tal como acontece na vida a qual possui um fim. Em relação a isto contrapõe a vida temporária de A o qual argumenta com o ponto de vista do eterno sendo ele que insere o factor escolha do either/or[18]. O padre obsta sustentando-se no clássico-teológico pensamento «uma vez contra Deus encontrarmo-nos-emos sempre no erro (no pecado) », mas o juiz Wilhelm avança com a tese da livre escolha e do auto-domínio apesar de isto constituir in facto ídolos o que contribuirá para colapsar a relação entre os homens e Deus ao ponto de serem abandonados por Ele.

É notório, neste relato, como as ideias deste nosso filósofo nos exaustam[19]  na importância da experiência a fim de que o nosso pensamento intelectual alcance o julgamento do absurdo ao ponto de incutir-impor  experiências assentes na angústia e na ansiedade, tal como no medo e no terror com o fito, de acordo com o seu ponto de vista, de conduzir o ser numa primeira fase ao desespero e finalmente (tal como eventualmente), à fé religiosa. Johannes Climacus (o pseudónimo de Kierkegaard nesta ocasião), argumenta que um sistema filosófico como o de Hegel torna-se impossível por falta de sustentação porque não permite o tomar em consideração a existência actual uma vez que a verdade constitui-se na subjectividade; d’onde, a impossibilidade do funcionamento do sistema de Hegel, segundo o nosso filósofo, assenta na relatividade da ideia de verdade... Nietzsche corrobora com esta afirmação de Kierkegaard[20].

Algumas e mesmo muitas vezes se tem negado Karl Marx (1818-83), como filósofo... porém, e pelo alcance-transformações que os seus documentos conseguiram ele tornou-se um dos maiores filósofos do século a que nos reportamos; ora, isto ninguém pode negar e mesmo pelo facto dos seus pontos de vista terem de sobremodo influenciado a política e a filosofia a partir de então... por isto, torna-se um absurdo o seu nome não constar em vários documentos da História da Filosofia.

Dentro da possível descontinuidade das obras de Karl Marx, tanto as iniciais como as  póstumas  (normalmente assentes no âmbito da Economia), muitos estudiosos puseram   em causa, tal como têm vindo a pôr, o como se pode estabelecer a distinção entre um Marx inicial e o das obras posteriores incluindo a tal hipótese de descontinuidade; porém, a opinião actual enfatiza a continuidade do seu pensamento filosófico o qual não Hegeliano foi profundamente influenciado por Hegel.

Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha), mas apesar de se ter candidatado ao curso de Direito rapidamente se inscreveu em Filosofia aonde se associou, em Berlim, aos denominados ‘Jovens Hegelianos‘... neste movimento também se afiliaram Ludwig Feuerbach, Max Stirner e Engels sendo os Hegelianos liderados por Bruno Bauer. Cada vez mais inserido no movimento socialista é na sua ida para Paris que se denota o seu pleno envolvimento... em 1845 e dentro das ideias socialistas, dá início à sua cooperação e profunda amizade com Engels: Marx e Engels trabalharam em conjunto no Manifesto Comunista em 1848.

Possivelmente expulso de Paris deslocou-se para Brussel (Alemanha), aonde se tornou líder da Liga Comunista. Entretanto em 1844 Karl Marx torna-se um profundo crítico das ideias de Feuerbach pelo facto do que este afirmara entusiasticamente sobre a religião e aonde considerava que as formas-teses materialistas não possuíam qualquer capacidade dialéctica o que significava que se encontravam despidas do ponto de vista histórico. Da mesma forma Freud criticou Feuerbach por este tentar demonstrar a essência do Homem como uma abstracção em vez de o ver como uma soma da totalidade das suas relações sociais.

A reacção de Marx contra Stirner é de certa forma idêntica dado este objectar à ideia da essência do ser humano no seu conjunto ao ponto de lançar a tese de um ego livre e independente o qual não só se cria como gera de per si os seus próprios pensamentos[21]« que interessa isto ou aquilo... o que interessa é o de que se pode apropriar; o individual é o único porque eu não desenvolvo o homem mesmo sendo um homem, mas e isso sim, o Eu e o eu desenvolvo no eu-próprio[22] ». Óbvio que perante esta tese Marx de imediato criticou um tal egoísmo como um produto da sociedade burguesa tal como o atacou por não reconhecer, em vez do facto das ideias egóicas serem as cousas determinantes, que as reais relações históricas é que são o facto e a causa determinante; d’onde, as ideias – segundo Marx -, são modificadas e determinadas pela vida o que implica o modo da produção e da inter-relação material.

Karl Marx sustenta o facto de haver momentos, fases, no desenvolvimento da autoconsciência os quais não são construídos baixo um idealismo Metafísico tal como Hegel proclamava; porém, a ideia da existência dessas fases é pura e essencialmente Hegeliana e é por esta razão que Engels, reportando-se a Marx, sustentou ter ele o Hegel excessivamente bem presente no seu pensamento... como que um trauma talvez provocado por ter pertencido à Juventude Hegeliana a qual por algum-demasiado tempo se dedicou a criticá-la pela falta de aprofundamento do materialismo a fim de lhes permitir o encontro da dialéctica materialista. No entanto e sob as fases acima focadas, o nosso filósofo afirmava a existência de várias: a primeira consiste naquela em que o homem se encontra absorvido na sua espécie-vida que consiste na sua natureza de trabalho... essencialmente o construtivo, revelando-se assim na sua execução a sua realidade; já na segunda fase o homem encontra-se envolvido numa alienação de si próprio e da sua espécie-vida o que implica a separação do ser em relação aos outros e tal como os outros alienados entre si... ele encontra-se finalmente alheado à própria vida – tal como os outros nesta fase... aqui as espécies-vida destes seres sujeitam-se meramente a um modo de existência física tendo como resultado a propriedade privada a qual é a expressão típica da alienação do homem. Por este meio os objectos adquirem um valor independente do trabalho que sobre eles se executou e, desta forma, o homem alheia-se da própria matéria tornando-se o objecto na exteriorização da sua consciência o que geralmente sujeita o homem a tornar-se um objecto tal como os objectos sobre os quais laborou; desta forma se exibe a segunda fase como a negação da primeira.

A terceira fase consiste – nos termos de Hegel -, na negação de uma negação e nisto se fundamenta o comunismo, segundo Karl Marx, o qual consiste na abolição da instituição da propriedade assentando inicialmente numa simples universalização da mesma no sentido de que as coisas são para ser trabalhadas e usufruídas por todos; ora, a completa abolição da propriedade eventual iria contribuir para a plena integração entre as coisas e as necessidades humanas fundamentais para a vida o que estabeleceria uma harmonia na relação entre as coisas e o ser. Mas Marx debruçou-se, paralelamente, nas barreiras estabelecidas entre os seres humanos condenando-as de sobremodo... mas tal pode ter sido uma resultante das fases dialécticas sobre consciência e auto-consciência somadas às fases da existência humana; sendo assim, observamos o nosso filósofo manter a ideia Hegeliana (típica no seu início), de que a história segue o modelo no qual a fenomenologia revela a ideia inerente às fases de desenvolvimento baixo as formas dos níveis de consciência. Porém, posteriormente Marx desagrega-se,  segundo alguns analistas e comentadores, das ideias de Engels e passa a assumir a consciência tal como todas as suas formas notando como se tratarem de aspectos de uma ‘super-estrutura‘ que emerge (e só pode emergir), assente numa ‘base‘ económica... na realidade, não existe aqui contradição entre o pensamento inicial do nosso filósofo com este último exibido, no qual apenas passou a expor a passagem de uma dialéctica teórica para uma aplicada; ora, se originalmente defendia que os factores económicos e as relações entre as coisas permitiam o emergir duma superior inter-relação da consciência, real e dificilmente – como alega à posteriori -, pode existir um ‘algo‘ que se interponha entre os factos sociais ou económicos e as relações tal como, por outro lado, entre as inter-relações da consciência.

A partir de aqui outros e posteriormente, começaram a desenvolver numa base científica as exactas relações entre a base e a super-estrutura afastando-se cada vez mais a filosofia e as teorias de Karl Marx do pensamento-actuação oficial Soviético.

 

 

 

 

 

 

Immanuel Kant

 

      É em função do corpo desta monografia que Vos introduzo o maior filósofo do século XVIII e um dos maiores da actualidade; quero com isto afirmar que não me vou debruçar no cerne dos seus desenvolvimentos filosóficos, se bem que aqui e ali seja inevitável tocar nalguns dos seus conceitos uma vez que, dado o parco conhecimento da sua personalidade, eles nos permitem aprofundar essa tal falha. O problema consiste não tanto na falta de elementos sobre a sua vida mas sim que tais se encontram esparsos em inúmeros documentos: Dicionários, Tratados de História, de Filosofia, de livros para crianças, etc. ... Tornou-se, deste modo para mim, um enorme prazer a grande respigagem a que me tive que aplicar e se a levei a cabo é porque estou certo de que a vivência deste filósofo – que sempre lutou para ser melhor e mais facilmente entendido -, no cerne da história da época Vos permitirá compreender melhor  o but [23], o modus operandis das suas análises e deduções mas e muito importante, os filósofos do século XIX que Vos apresento no acima.

Em 1724 nasce na Prússia este grande gigante da Filosofia o qual durante oitenta anos de vida[24] vai tecer a sua filosofia que no seu interior se vai desenvolver num ritmo lento-cuidadoso do ponto de vista analítico, fruto da sua vivência mesmo nunca tendo viajado; a época na realidade não era nada fácil para os escritores, pensadores e artistas mas dos seus documentos nenhum censor o podia acusar porque não o podiam entender... aliás os próprios filósofos da época tal como de épocas posteriores, dificilmente o compreenderam[25]. Filho de pais pobres que emigraram, pensa-se que da Escócia, para a Prússia é neste país que a sua mãe pariu um menino a quem foi dado o grande nome: Immanuel Kant. Como já atrás afirmei, a sua vida particular aparenta ser desconhecida no entanto sabe-se que se manteve solteiro toda a sua vida, a sua existência foi assente no perfeito método tal como na regularidade das suas ocupações, era um ser frugal impecável na sua veracidade, tão cheio de brio quão austero nos seus princípios de moralidade porém muito amável, possuindo uma maneira de ser repleta de bons modos; valoroso advogado da liberdade política possuía uma enorme firmeza na certeza da capacidade do progresso  humano. Actuou a favor das colónias americanas apoiando-as na sua luta contra a Inglaterra tal como o fez em relação ao povo francês aquando da Revolução Francesa e da Tomada da Bastilha em 1789 – foi nesta altura que surgiu o célebre lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade -, contra os abusos monárquico-feudais e do poderio da Igreja Católica que escravizava o povo quer através do terror, quer pelo seu poderio cada vez maior sobre o poder, os nobres e os burgueses influentes... por tudo isto tal como por todo um estado de conflitos e degradação em que se encontrava a Europa, decide escrever o tratado Perpetual Peace [26]; ora, um indivíduo que exibe neste tratado a sua enorme sensibilidade sobre os acontecimentos não já só da Europa mas de uma grande parte do mundo foi, seguramente, levado a debruçar-se sobre valores de liberdade tal como de compreensão de uns para com os outros e mesmo porque toda a insegurança que o rodeava não lhe permitia divisar como neste ambiente se poderia desenvolver a capacidade do progresso humano, com toda a certeza tudo isto ele digeriu e sobre esta matéria assentou a grande parte, se não a totalidade, a sua filosofia.

A trilogia de Kant exibe o que acabei de afirmar[27]: a Crítica da Razão Pura, a Crítica da Razão Prática e a Crítica do Juízo. Do mesmo e de sobremodo é notório nos Fundamentos da Metafísica dos Costumes, obra que foi publicada antes e no ínterim das duas primeiras Críticas que não pertencendo à trilogia citada suscitou mais atenção do que a Segunda Crítica. Do mesmo modo a minha afirmação mantém-se em relação aos Prolegómenos a toda a Metafísica Futura, obra publicada aquando da publicação das Críticas e cujo fito era o de tornar os seus pontos de vista mais acessíveis, tal como em toda a soma de obras publicadas abarcando desde a religião à política entre outros trabalhos que na altura se denominavam de Antropologia mas que constituíam a psicologia empírica da época.

Na sua preparação formativa tal como nas suas rígidas actualizações e desenvolvimentos Immanuel Kant debruçou-se sobre o estudo da gramática, da sua construção, da semântica e da sintáctica; mergulhou nas profundezas da Lógica e da Matemática o que lhe permitiu estudar e aprofundar em pleno a física de Newton [28] a qual aprofundou toda a sua vida. Porém, a Teologia, a Metafísica, a Estética – tal como a Estética das Belas Artes -, i. é: em todas as matérias se aprofundou[29] incluindo a própria Astronomia a qual usou para fundamentar determinados pontos de partida e conclusões da sua argumentação, não esquecendo a Política, como já atrás foquei, ao ponto de se ter dedicado à pedagogia da criança e inclusive à importância dos brinquedos no seu desenvolvimento pedagógico. Apesar de solteiro toda a sua vida, Kant foi preceptor durante nove anos (1746 – 1755), tendo dado vários cursos de pedagogia na Universidade de Königsberg[30] cujo material reuniu num pequeno livro Réflexions sur l’Éducation (Paris, Vrin, 1993), no qual exibe estar muito mais interessado nas faculdades da criança do que pelas disciplinas do ensino. Passando em revista os jogos infantis condena uns e enaltece outros, mas distingue nitidamente o jogo da instrução uma vez que para Kant a escola é um lugar de cultura obrigatória na qual o mestre não deve permitir o degenerar em espaço de jogo uma vez que os esforços do aluno participam da sua educação. A sua experiência de preceptor ensinou-lhe a medir a distância que separa a teoria da prática ao ponto de frequentemente limitar-se a propor soluções ditadas pelo bom-senso tal como quando evoca o jogo a propósito da educação física «O jogo da bola é um dos melhores jogos infantis, pois tem de se correr, o que é muito são [31]». Sobre os jogos Kant numa perspectiva Histórica e Antropológica dá como exemplo o facto de na antiga Grécia já se conhecer o jogo da cabra-cega o qual exibe o desejo «de ver como elas se desenvencilhariam caso fossem privadas de um dos sentidos». Este desejo de compreender a razão oculta dos jogos infantis é novo na época do nosso filósofo contrariando a ideia comum à maioria dos pedagogos de que os brinquedos não eram mais do que objectos frívolos; porém, um adulto que use toda a sua inteligência possível tal como um cientista a fim de observar as brincadeiras das crianças poderá fazer descobertas importantes ao ponto do cientista poder beneficiar desta observação: «o pião é um jogo particular; e, no entanto, esses jogos infantis constituem depois uma oportunidade para os homens reflectirem e, ao mesmo tempo, são por vezes uma ocasião para importantes descobertas. Foi assim que Segner em 1735 publicou uma dissertação sobre o pião e que este brinquedo inspirou ao capitão de uma embarcação inglesa o invento de um espelho, graças ao qual se pode medir a altura das estrelas a partir de um navio. »

Kant muda então de perspectiva[32] emitindo a ideia de que é mais judicioso que seja a criança a fabricar os seus próprios brinquedos: «As crianças gostam muito dos instrumentos que provocam ruído, como, por exemplo, as pequenas cornetas, os pequenos tambores, etc. Porém, estes instrumentos não valem nada, pois incomodam os outros. Essas coisas seriam contudo bem melhores se as crianças aprendessem por elas mesmas a confeccionar uma pequena flauta na qual pudessem soprar.» Note-se que Kant atribui mais importância ao jogo educativo tal como à construção de um instrumento mais ou menos ruidoso do que ao respeito pela tranquilidade dos vizinhos. O nosso filósofo revela-se muito moderno nas suas análises sobre a psicologia da criança: «A criança recusa outras necessidades em proveito destes jogos [33] e aprende, pouco a pouco, a impor a si mesma outras privações, mais consideráveis. Além disso, ao agir desta forma, habitua-se a uma ocupação duradoura e, por esse motivo, não deveis ocupá-la num simples jogo, mas num jogo que possua um propósito, uma finalidade

Esta faceta de Immanuel Kant que Vos acabo de expor[34] exibe (tomando em consideração os rigores educativos-punitivos-castrantes da época), revela de sobremaneira a docilidade do filósofo[35], a qual lhe era intrínseca não obstante saber exigir o rigor com o fim de desenvolver a boa formação que mais tarde permitirá ao jovem já adulto estar munido de preciosas ferramentas de decisão, análise, frugalidade, autodisciplina sem contudo perder a sua jovialidade, a sua doçura, os seus bons modos, em suma, todo um equilíbrio com o qual tanto se comporta de acordo com o meio em que se envolve como se retira se não o achar conveniente e por outro lado o nunca se permitir sujeitar perante a injustiça humana. Ora, esta é a outra vertente da personalidade de Kant: a capacidade de, sem odiar, ser opositor directo e frontal a favor do povo, da sua liberdade contra os domínios e potestades e tal se observa em todos os seus documentos como no que abordo a seguir: Perpetual Peace. Este documento expõe essencialmente as condições para a paz entre os estados e dentro deles; claro, que para se conseguir uma leitura mais profunda[36] é essencial conhecer a Ética, a Estética e a Metafísica kantiana o que implica, entre outros documentos do filósofo, a trilogia: as Críticas. Claro que isto pode ser difícil de conceber para uns mas não para aqueles cuja vocação é a Filosofia. Observem um advogado ou um juiz os quais após anos da sua actividade continuam a reler os documentos a fim de obter novas e mais profundas articulações tal como a de detectarem a falta delas por falhas de alíneas nos Decretos ou mesmo de Decretos em si... é assim que se move aquele caminha no campo que é a sua vida.

Perpetual Peace (Paz Perpétua), divide-se em duas Secções: a primeira subdivide-se em seis artigos preliminares e a segunda em três artigos definitivos a saber:

 

Secção I

 

1.        «Nenhum Tratado de Paz Deverá Possuir Validade desde que no seu Contexto se Observe Tacitamente Reservada Matéria para uma Guerra Futura[37]»

2.         «Nenhum Estado Independente, Grande ou Pequeno, Deverá Dominar Outro Estado [38] quer seja por Herança, Troca, Aquisição, ou Doação»

3.         «Forças Armadas[39] Estacionadas Deverão a seu Tempo Serem Totalmente Abolidas»

4.         «Dívidas Nacionais Não Devem Ser Contraídas com o Fito de Provocar a Externa Fricção dos Estados [40]»

5.         «Nenhum Estado Deve pela Força Interferir na Constituição ou Governo de Outro Estado [41]»

6.         «Nenhum Estado, durante uma Guerra, Deverá Permitir Actos de Hostilidade os Quais Provocarão uma Falta de Confiança Mútua Tornando Impossível um Subsequente Tratado de Paz Tais Como: a Contratação de Assassinos, Envenenadores, os Obrigados à Capitulação, tal como Incitar à Traição no Estado Oponente [42] »

 

 

 

 

Secção II

 

 

 

PRIMEIRO ARTIGO DEFINITIVO PARA A PAZ PERPÉTUA

 

«A Constituição Civil de Qualquer Estado Deverá Ser Republicana»

 

Contrariamente à monarquia cujo conceito de reino por hereditariedade não constitui um Estado quer porque este não pode ser herdado e muito menos por outro Estado ao ponto de tornar as pessoas objectos do domínio, a República é a única garantia de uma constituição que assenta: em primeiro lugar, nos princípios da liberdade dos membros da sociedade como Homens; em segundo lugar, nos princípios de dependência de todos baixo uma única legislação comum como sujeitos; e em terceiro lugar, na lei da sua igualdade como cidadãos. Desta forma, a Constituição Republicana concerne à Lei, aquela que é a base original de toda a forma de Constituição Civil.

 

 

SEGUNDO ARTIGO DEFINITIVO PARA A PAZ PERPÉTUA

 

«A Lei das Nações Deve ser Alcançada numa Federação de Estados Livres»

 

Como entidades individuais, do mesmo modo que as pessoas, os Estados devem ser julgados no caso no caso de danos, ofensas, insultos, etc. mas para que tal julgamento se possa efectuar os Estados deverão consensualmente estabelecer uma Constituição Externa (i. é: externa), similar à Constituição Civil para a sua própria segurança no que concerne aos seus direitos e obrigações. Tal tornar-se-à uma liga das nações[43] mas nunca deverá constituir um Estado incorporando os outros Estados[44] o que se tornaria contraditório ao espírito da afirmação que encabeça este Artigo, uma vez que implicaria a relação entre uma legislação superior sobre uma inferior, obediente-sujeita, ao ponto das pessoas dos diferentes Estados tal como os próprios Estados se tornarem uma Nação.

Quando consideramos a perversão da natureza humana que se exibe nua  e crua no descontrolo das relações entre as Nações, quedamo-nos atónitos  de como é que o termo LEI ainda não foi banida pelos pedantes políticos senhores da guerra que a assumem como uma necessidade sine-qua-non para a garantia da estabilidade e segurança da Nação. Por esta razão Kant afirma que a Liga deve possuir especiais particularidades a fim de que se possa denominar uma Liga de Paz e que deverá se diferenciar do espírito de um tratado de paz pelo facto de que o último só se estabelece para pôr fim a uma guerra... tal tratado de paz é temporário e nunca Perpétuo. Esta Liga não pode pretender qualquer domínio sobre o poder de um determinado Estado mas e apenas manter e conceder a segurança da liberdade do Estado tal como em relação aos outros Estados inseridos na Liga. A realidade objectiva desta ideia de Federação, que se deverá gradualmente espalhar a todos os Estados do mundo conduzindo-os à Paz Perpétua (Perpetual Peace), pode ser demonstrada e comprovada. Se por fortuna um povo poderoso e culturalmente iluminado formar uma República a qual e pela sua natureza assentar na base da Paz Perpétua, tal concederá um fulcro para a Federação com outros Estados que aderindo assegurará a liberdade baixo a ideia da Lei das Nações.

      É óbvio que ainda nos encontramos tão distantes de alcançar este tipo de Federação, nem a ONU funciona em pleno século XXI porque as grandes potências não permitem[45], que sentimos o tratado Perpetual Peace como uma utopia, mas não nos esqueçamos que voar, a defesa ecológica e muitos outros aspectos hoje conseguidos também já pertenceram ao mundo da utopia.

 

 

 

TERCEIRO ARTIGO DEFINITIVO PARA A PAZ PERPÉTUA

 

« A Lei da Cidadania Mundial Deve ser Limitada em Função das Condições da Hospitalidade Universal »

 

Não se trata aqui de um questão filantrópica mas e sim de direito. Hospitalidade significa o direito de um estrangeiro não ser tratado como um inimigo quando entra num outro Estado. Pode-se realmente recusar a entrada a um estrangeiro (por razões válidas para o Estado), mas tal pode ser efectuado com toda a cordialidade; mas desde que o estrangeiro ocupe o seu lugar pacificamente não se deverá criar hostilidade em relação a ele. Não é correcto que um visitante decida de per-si tornar a sua estadia permanente; para estes casos de estadia deverá existir um acordo que concederá ou não a um estranho o direito de se tornar membro da comunidade por um tempo estabelecido em função das causas e das necessidades desse visitante[46]. Há um direito que assiste a uma estadia temporária por parte de um estrangeiro tal como o direito de se associar, o qual é inerente a todo o ser humano e que assenta na posse comum de todos da superfície da Terra onde e como um globo, não se pode indefinidamente tolerar a dispersão. Originalmente ninguém tinha mais direito do que o outro em relação a um espaço particular da Terra.

 

* * *

 

Este aspecto de Kant como político-teórico eleva-se à imagem do estadista no acérrimo do termo, i. é, do homem que procura esgotar toda a capacidade de diálogo a fim de a todo o custo evitar uma guerra e porque se descarta sistematicamente dos aspectos financeiros (relegando-os para o nível do erro crasso; nesta matéria, exibe o possuir a certeza de antes de esgotar a argumentação a favor da paz a conseguirá no âmbito de salvaguardar sempre os interesses de ambas as partes em vias de conflito. Porém, as suas intenções não param por aqui... ele pretende a Paz Perpétua e conhece profundamente, como se observa no seu tratado, que tal meta não será oferecida de bandeja a uma humanidade[47] já mais que viciada em interesses, poderios, fama, posses e, acima de tudo, dinheiro tal como com um largo escol no seio da traição, da espionagem, da corrupção, etc.; conhece evidentemente a utopia do seu material e por isso mesmo escreveu (e escreveu mesmo muito), aliciando os seus temas e o modo das suas abordagens outros a escreverem de modo a que a consciência de alguns sobre esta matéria contribua para a expansão destes assuntos na consciência dos outros... que a Moral, tal como a Ética, a Estética e a Metafísica passem a impregnar o íntimo de cada vez mais humanos ao ponto desses mesmos conseguirem elevar os Estados ao ponto de moral e naturalmente assumirem esse tipo de Liga.

      Freud[48] não só constantemente recorreu a Kant – mais do que a qualquer outro filósofo -, como aplicou e desenvolveu as suas teorias afirmando mesmo que uma boa parte da sua obra  assentou nas Críticas; já no movimento Neo-Kantiano a visão de Kant adquiriu a máxima proeminência ao ponto de Herbart, Helmholtz, Meynert e mesmo Lipps se considerarem Neo-Kantianos justamente na altura em que Freud se debruçava sobre o seu próprio modelo da psique (em 1895), o qual o guiará até ao fim dos seus dias; sobre este modelo Freud aludiu inúmeras vezes pelo seu paralelismo com o modelo da psique de Kant e das ideias envolventes, tal como, pela proximidade e importância destas vias ao ponto destes paralelismos não só iluminarem Freud como ainda hoje se manterem ricos e plausíveis. No caso Schreber (1911), Freud reporta-se ao trabalho de Kant sobre o seu modelo que encontrou na pág. 97 da Crítica da Razão Pura[49]observando serem as suas ideias tão convergentes que se o modelo de Kant é tripartido sendo os três elementos a razão, o entendimento e a sensibilidade tal como para Freud (o modelo também tripartido), compõe-se de Super-ego, Ego e Id. Tanto Kant como Freud afirmam que algo (alguma coisa), pode ser ou tornar-se consciente somente se for descrita, captado através da linguagem.

 

Modelo de Kant face a face com o de Freud[50]

Noumena Phenomena Consc. Pre-cs. Ucs.

Categ.Imperative <-------------> S U P E R -E G O...>

REASON ____________________

Regulative Princ. <-------------> (?) ____________________ (Self-Consciousness) <-------------> |Cs.|

UNDERSTANDING

____________________ <-------------> E G O ............>

Outer Sense <-------------> (Ext. World)

SENSIBILITY PERCEPTION

Inner Sense <-------------> ___________ Will <-------------------------------------------> I D (Schopenhauer) _

 

Os parêntisis indicam os elementos no modelo cuja colocação nunca se tornou clara, tanto a questão da consciência do eu (Self-Consciousness) para Kant como a percepção do mundo exterior (perception of the external world) para Freud.

 

 

* * *

 

      Ao finalizar esta página espero que ele Vos elucide e Vos possa proporcionar uma mais fácil abordagem dos Tratados de Kant. Claro que não sou pretencioso ao ponto de pensar que nesta meia dúzia de linhas Vos abri todos os campos... nem pensar! Mas uma coisa eu sei é que se abordarmos e neste caso, os filósofos procurando a sua personalidade em função da época e da cultura em função da geografia a que se encontra circunscrita, torna-se mais fácil para nós entendermos e apreendermos o autor. Por exemplo, só esta webpage contém matéria para desenvolver um Ensaio e em contínuos desenvolvimentos a par de levantamentos de dados afins a esta matéria obteríamos material para uma Tese de Doutoramento.

 

Legendas das imagens:

1 – Hegel

2 – Hegel

3 – Schopenhauer

4 – Nietzsche 1874

5 – Wagner

6 – Nietzsche

7 – Kierkegaard

8 – Marx 1869

9 – Engels 1891

10- Freud 1920

11– Marx 1882

12- Engels 1893

13- Kant

14- Kant

15- Brincar com pião

16- Brincar às carruagens

17- Freud 1933

18 - Kant

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[1]  Daí a razão da exposição histórica de Kant mais exaustiva no final deste capítulo.

[2]  Tal como a do ‘moi’ e do ‘moi-même’ amplamente exposta por Karl Jung – o filósofo da simbológica sagrada -, discípulo de Freud.

[3]  Termo em latim muito usado em exposições de filosofia tal como de letras em geral, que costumo traduzir por ‘d’onde‘... o importante é que a força deste termo paraleliza  ao ‘ implica ‘.

[4]  Arranjo é um termo fundamental da lógica matemática e que faz parte da Análise Combinatória... a raiz das Probabilidades, da Estocástica e da Estatística. Portanto, há que não banalizar o termo Arranjo. Neste campo da lógica e da matemática a Combinatória possui a tríade: Arranjo, Permutação e Combinação.

[5]  Tal como hoje e nos séculos futuros.

[6]  O PORQUÊ e o CERNE.

[7]  E como há o Bom e o Mau Espírito... os dignatários do estados que respondam pelos seus moods.

[8]  Atenção às minhas maiúsculas... elas significam força-responsabilidade.

[9]  Aqueles que lêem meia dúzia de páginas em cem... apenas lêem sem o propósito da análise. A ideia de Totalitarismo pode-se aplicar realmente a Nietzsche, como veremos adiante.

[10]  Mas e apesar de muitos críticos e comentaristas do pensamento filosófico afirmarem (ou terem afirmado), que a influência do Pensamento-Filosofia do Extremo Oriente passou no século dezanove indelével sobre a Europa, tal é falso. Normalmente este tipo de conclusões advém de comentarista e críticos do norte da Europa, de aqueles cuja religião dominante é a Luterana, porque a Europa Católica foi de sobremodo impregnada tanto pelo hinduísmo como pelo budismo... que o digam os jesuítas e os franciscanos-capuchinhos.

[11] Reflexo feudal ainda muito presente na época... tal como ainda hoje mas de fato e gravata.

[12] Segundo alguns historiadores. Porém quanto a mim e à grande parte dos filósofos aqui Nietzsche foi grandiloquente... tudo menos imaturo.

[13]  Nada do outro mundo já S. Paulo afirmou sobre a falsidade: « se por meio de uma mentira eu vos pudesse convencer seguramente que o faria para vossa salvação e glória d’Aquele Jesus... » Novo Testamento, Carta aos Romanos capítulo 3 e versículos de 1 a 7 (em especial o versículo 7), que é o que contém a afirmação por mim traduzida do grego evangélico... o popular ou koiné.

[14]  A escola Rosacruz banida por toda a Europa e pelos Estados sulistas dos E. U. A., tal como a Maçonaria, apenas encontra poiso para a sua sede no norte da Alemanha por volta de 1820.

[15]  Farto-me de chamar à atenção sobre o perigo dos silogismos... os destes ditos filósofos (mas muito mais economistas-estrategas), tornaram-se social e individualmente perigosos para o Ser; ainda hoje, no século XXI, sofremos as agruras desta tese por isso roemos as unhas entre o consumismo e o desemprego.

[16]  Apesar de ser um indivíduo extremamente religioso durante muito tempo ele lutou contra a relação da dependência Igreja-Estado da Dinamarca o que ele achava uma violação aos ensinamentos de Cristo... o Estado deverá ser laico para que a Igreja possa agir fora de amarras de dependência com o fito de ter voz activa no sentido espiritual do termo. As suas ideias apenas foram reconhecidas cerca de um século após a sua morte.

[17]  Que por qualquer razão o seu nome em dinamarquês significa ‘ Jardim da Igreja ‘: Kierke = Igreja e gaard = jardim, resguardo ou protecção natural mas de origem vegetal... a meu ver, este apelido exibe o ser ele descendente de uma já longa descendência de pastores Luteranos ou então, um cristão novo filho de cripto-judeus ou mesmo judeus conversos ao cristianismo. Esta análise do nome não é vã porque normalmente e até meados do século XX os apelidos eram dados de acordo com a vocação que se pretendia dos filhos... os apelidos eram tão livremente aplicados como o primeiro nome. Se proveniente de uma descendência de pastores luteranos é porque houve uma tendência crescente contestatária no seio dos seus ascendentes cada vez mais no sentido do reaproximar a teologia da Bíblia; mas, se filho de judeus conversos então a tónica do anátema toma a forte força de quem não condescende numa letra quanto mais num afirmação fora do contexto Bíblico e este último aspecto é o que me parece mais apropriado dado a radicalidade dos seus textos... radicalidade típica do judeu converso cuja composição do apelido denuncia.

[18]  Either/or no sentido filosófico traduz-se De uma forma/ou d’outra.

[19]  Exaustam no puro conduzir ao stress.

[20] Por mais campos que a filosofia abarque a individualidade e a individualidade de escolha tem sido sempre o seu cerne ecoando profundamente e para exemplo, na filosofia de Jean-Paul Sartre... na qual a religião se encontra completamente ausente.

 

[21]  Como se um Ser se pudesse alhear do mundo na sua totalidade e gerar o seu próprio nem que fosse no imaginário... Freud seguramente não gostou da ideia tal como Karl Marx, se bem que por razões diferentes.

[22]  No egóico moi-même.

[23]  O porque.

[24]  Morre em 1804.

[25]  Ainda hoje Kant é matéria de estudos e revisões de pontos de vista de abordagem e de análise sobre os seus documentos.

[26]  Mantenho o título Inglês porque desconheço se existe uma tradução portuguesa.

[27]  Bem visto, se o leitor como estudioso observar o surgimento, desenvolvimento e toda a evolução das obras (tanto de Kant como de as de qualquer outro filósofo), em função dos acontecimentos históricos a todos os níveis na sua época.

[28]  Que ainda hoje é não só a Física de base como constitui a Física sine-qua-non a nível dos estudos  superiores.

[29]  Menos a Medicina, pelo menos que eu tenha conhecimento... mas seguramente que não.

[30]  Tratam-se de quatro cursos cada um de um semestre: semestre de Inverno (1776 – 1777), semestre de Verão de 1780, semestre Inverno ( 1783 – 1784) e o semestre de Inverno (1786 – 1787).

[31]  Afirmação de Kant no seu livro Réflexions sur l’Éducation.

[32]  Do mesmo modo procedeu Locke, um dos mais reputados filósofos ingleses (1632-1704).

[33]  Jogos como o baloiço e o lançar o papagaio de papel, os quais exigem destreza, controlo da velocidade em função do impulso e, no caso do papagaio de papel, exige a análise da direcção dos ventos, como aspectos de impulso, direcção, etc.

[34]  Na pág. 3 da linha 10 até à linha anterior à da marcação desta nota, é uma cópia quase completa duma pequena parte do livro História do Brinquedo e dos jogos, o qual consta na Bibliografia deste meu documento e inclusive as páginas quase totalmente copiadas.

[35]  Que nunca tendo sido pai exibia uma brandura pedagógica em especial em relação às crianças muito fora do espírito impositor e punitivo dos pedagogos da época.

[36]  Os documentos filosóficos (como os dos outros campos do conhecimento), exigem muitas vezes repetidas leituras ao longo de uma vida a fim de que, com a maturidade e o conhecimento afim, nos permita encontrar neles outros aspectos e vertentes que em leituras anteriores nos passaram despercebidas.

[37]  Este Artigo (tal como todos os que se seguem), é importantíssimo para Filosofia de Religiões, por exemplo, na análise de um documento a que uma comunidade assuma como Livro Sagrado... tal traduz inúmeras características antropológicas, sociológicas, ambientais, etc. dessa comunidade, seja a guerra declarada nesse documento, baixo determinadas leis, pelos homens ou pelo seu deus e mesmo sendo ele, neste caso,  quem ataca com o seu séquito de forças espirituais... não esquecendo as teologias que não raro são mais encarniçadas do que o documento tido como sagrado.

[38]  É notório aqui o espírito anti-colonialista de Kant.

[39]  Armas, armadas, exércitos, etc.

[40]  Por exemplo: Um Estado procura ajuda financeira de outro(s) Estado(s) com o propósito de desenvolvimento da sua economia doméstica - tal como ampliação de estradas, aumento da indústria, construção de Armazéns para suportar os anos de improdutividade por causas naturais, etc. -, neste caso ninguém desconfia. Mas num sistema antagonista de poderes, como que uma máquina opositora, o sistema de créditos dispara num crescimento de juros alucinante - não obstante a dívida se encontrar salvaguardada - e mesmo porque os creditores não exigem todos o pagamento na mesma altura tal como nos mesmos moldes; ora, isto e reporto-me à época de Kant, constitui um poder financeiro perigosíssimo porque se torna (como na Inglaterra dessa época), um tesouro de guerra que excede o tesouro de todos os outros estados. D’onde, a proibição deste sistema de crédito é um Artigo Preliminar do Perpetual Peace, porque inevitavelmente conduz à bancarrota inúmeros Estados mais empobrecidos sentindo-se, desta modo, justificados ao aliarem-se e insurgirem-se contra o Estado dominante.

[41]  Salvaguarda-se aqui o caso em que uma revolta surge com o fim de dividir um país em dois; Neste caso, o pedido de auxílio por uma das partes para a reunificação do Estado deve ser aceite por outro ou outros estados porque, neste caso, não se pode considerar uma interferência na Constituição por parte dos poderes estrangeiros mas e isso sim, o modo de restabelecer a desestabilização interna desse Estado.

[42]  Porque se trata de uma estratégia desonrável.

[43]  Em 1920 dá-se a primeira reunião que funda as actividades da Liga das Nações de que foram excluídas a Alemanha, a Áustria, a Rússia e a Turquia. Nessa reunião não estavam representados os Estados Unidos da América. O tempo desta Liga das Nações foi muito curto cessando todas as suas actividades na Segunda guerra mundial após a qual surgiu a Organização das Nações Unidas.

[44]  Tal como aconteceu com a União Soviética e acontece com a China e os Estados Unidos da América.

[45]  Os E.U.A. são hoje a imagem do que afirmo tal como a China.

[46]  Um emigrante possui um tempo definido que advém do seu aspecto contratual aceite pelo estado; porém um refugiado ou um exilado, pelas condições do seu Estado, aceite por um outro Estado já não possui esse tempo definido e tal terá de ser devidamente ajuizado em função das causas que o levaram a abandonar o seu Estado.

[47]  Kant sabia que muitos séculos teriam de passar para uma parte significativa da humanidade conter em si essa moral conducente ao seu propósito.

[48]  35º Congresso Internacional Psicanalítico, Montreal, 1987 – Canadá.

[49]  Note-se que a pág. 97 reporta-se ao documento e edição em alemão de Kant adquirido por Freud em 1882.

[50]  De cima para baixo, observe-se como os dois modelos se relacionam entre si.